domingo, 19 de julho de 2009

Caritas in Veritate: uma lição para a CIP


Bento XVI, apesar de líder de uma instituição compreensivelmente conservadora, parece decididamente progressista ao pé de personagens como Manuela F. Leite (MFL), ou mesmo revolucionário ao pé de outras como F. van Zeller.

Tive oportunidade de ler a pequena crónica de MFL a propósito desta nova encíclica Papal, publicada pelo Expresso no passado 11 de Julho.

Como de costume, MFL mostrou-se mais preocupada em tentar passar uma aparente e superficial compreensão do tema, do que em contribuir para uma muito necessária transposição portuguesa da mensagem explícita do Papa.

Ficou-me da leitura da sua crónica meio-amorfa uma vaga impressão de que MFL terá chegado a horas à mesa, revelando-se porém incapaz de saborear a sopa com alegria; parecia antes fingir engoli-la apressadamente, para a regurgitar adulterada noutra ocasião.

Há contudo pelo menos três pontos importantes na Caritas in Veritate que não é demais frisar, ainda que tenham sido menos merecedores da reflexão de MFL (ela optou por focar a necessidade por "novos estilos de vida"...):

O primeiro, sendo um lugar comum, não deixa de ser importante: o texto propõe que o principal capital a ser salvaguardado e valorizado seja a pessoa humana na sua integridade, vendo o Homem como o autor, o centro e o fim de toda vida económica e empresarial. Por outras palavras, a economia deve estar ao serviço do Homem, e não ao contrário; a economia enquanto meio, e não como fim.

Um segundo ponto foca directamente as questões de falta de ética que o modelo económico actual não anula e antes promove, por intermédio de abusos individuais e institucionais que vinham sendo cada vez mais tolerados. Por outras palavras, é urgente a regulação do colectivo sobre certas partes da economia, q.b., e uma justiça social mais equilibrada e envolvendo todos, empresas incluídas, para além dos "mínimos éticos".

Por último, a encíclica alude ainda directamente ao progressivo distanciamento humano entre os chefes de empresa e aqueles que para si trabalham, naquilo que constituí uma alienação desumana e perigosa. Afirma que “É fácil desvincularem-se quando não têm um contacto diário com as equipas de colaboradores e se esquecem que o capital humano é formado por pessoas com nome e apelido, com aspirações, potencialidades, famílias e sonhos e cuja contribuição para o seu trabalho diário é único e valioso. Para que uma empresa seja altamente produtiva, tem que ser também plenamente humana e socialmente responsável”.

De volta à realidade, atente-se no recente e mau exemplo da CIP, quando se pronunciou a propósito dos problemas levantados por uma eventual pandemia de gripe. Foi sobretudo a forma literal e radical como colocou a questão, ingnorando propositadamente a Lei, mas sem que se notasse a mínima preocupação de chegar a um compromisso socialmente justo com o Governo, que revelou a falsidade da sua "responsabilidade social".

Portugal no banco dos réus

Que se paguem mais impostos do que na maioria dos países da UE para comprar um automóvel utilitário - quase um bem de primeira necessidade num país onde as redes de transportes públicos funcionam ainda como se sabe - é um perfeito absurdo, uma injustiça social e um claro abuso continuado do poder de soberania... Passou uma década sem que nenhum Governo entendesse prioritário resolver este problema satisfatoriamente.

Falou em responsabilidade social?


Os resultados provisórios do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (EU-SILC) do Instituto Nacional de Estatística (INE) realizado em 2008 revelou que se considerássemos apenas os rendimentos do trabalho, de capital e transferências privadas, “41% da população residente em Portugal estaria em risco de pobreza”, em vez dos 18% actuais.

Num momento em que é sabido que alguns neoliberais se dedicam à discussão da "responsabilidade social", era bom que respondessem o que seria desses 41% de portugueses sem um estado social. Ou será que as suas conferências e seminários não passam de re-edições de feiras de vaidades?

AIG em conversações com Obama


A seguradora AIG esteve esta semana em contacto com a Casa Branca. O assunto de conversa foi a nova onda de bónus que a empresa se preparava para pagar aos seus executivos de topo. Eram 250 milhões de dólares (37 milhões de contos na moeda antiga, ou cerca de 185 milhões de Euros).

Ground Zero, Africa


"No business wants to invest in a place where the government skims 20 percent off the top, or the head of the port authority is corrupt. No person wants to live in a society where the rule of law gives way to the rule of brutality and bribery. That is not democracy, that is tyranny, and now is the time for it to end."


Barack Obama

sábado, 11 de julho de 2009

"Leão" Alegre ao combate, finalmente!


Passe a repetição, mas porque me parece crucial difundir, escolho a selecção de passagens do Carlos Santos (http://ovalordasideias.blogspot.com/) a propósito da crónica de Alegre publicada pelo Expresso.


"As próximas eleições serão marcadas por uma ofensiva ideológica da direita. O que está em causa é o consenso constitucional aprovado por larga maioria (incluindo o PSD) sobre os direitos sociais (escola pública, universalidade do acesso à saúde, segurança social pública). A líder do PSD anuncia o fim de um ciclo e de uma concepção de democracia em que direitos políticos e direitos sociais eram considerados inseparáveis. Com o absurdo de o PSD partir para as eleições com a bandeira da ideologia que está na origem da actual crise mundial. Sabem-se os objectivos: papel do Estado, protecção social, direito do trabalho.
Os resultados desta receita estão à vista em toda a parte: desregulação do mercado entregue a si mesmo, busca sem freio do lucro pelo lucro com total indiferença pelos custos sociais, ausência de ética e transparência. Na hora do colapso do neoliberalismo, MFL faz o discurso ultraliberal do Estado mínimo. À força de tanto querer rasgar, acabará por rasgar o horizonte social do 25 de Abril, consagrado na Constituição.
(...)
Seria preciso que os socialistas acordassem do seu torpor (...) e que as outras forças de esquerda, sem abdicarem da posições próprias definissem com clareza o adversário principal, e se interrogassem sobre as eventuais consequências de um eventual governo de MFL. Se MFL governar o povo da esquerda será o principal perdedor, independentemente da votação nos partidos que dele se reclamam.


Dir-me-ão que a maioria do PS não governou à esquerda. Eu também gostaria que tivesse governado de outra maneira. Mas também sei que uma maioria de direita jamais deixaria passar o referendo sobre a IVG e a lei do divórcio. Sei que com o governo de MFL o SNS será praticamente desmantelado e o papel do Estado, como ela já afirmou, "reduzido ao mínimo indispensável.
(...)
Para que um dia destes não estejamos a perguntar-nos (...) como é que um país maioritariamente de esquerda pode acabar uma vez mais a ser governado pela direita?"

Frases para a nossa memória


A 12 de Maio passado, afirmava Cavaco que: "A economia de mercado é a melhor via para somar a liberdade ao progresso económico."


Seja, mas há vários pressupostos axiomáticos nesta afirmação, mesmo se a escutamos de boa fé:


O primeiro é o de que vivamos numa democracia de qualidade; sem democracia não está provado que a economia de mercado seja socialmente eficiente, antes o contrário. E a verdade é que a nossa democracia é ainda manca: na justiça, na autonomia e na estabilidade das diversas instituições que deveriam equilibrar civilizadamente o poder, na profissionalização da administração pública, ou na transparência e objectividade de um largo número de órgãos de soberania.


O segundo é o de que a economia esteja ao serviço da sociedade de forma razoavelmente equitativa; para isso seria necessária a regulação de facto da sua actividade. A economia de mercado não é um fim, é apenas um dos meios, e nem sequer é necessariamente o mais importante desses meios.


Finalmente, o terceiro, é o de que haja um mercado eficiente; um mercado define-se pela existência de um número de agentes suficiente quer do lado da procura como, também, do lado da oferta. Todos sabemos que no nosso país, em vários sectores económicos, o mercado será tudo menos algo muito eficiente...

Cavaco foi omisso, incompleto, aparentemente mais preocupado com a manutenção do statu quo do que com a reflexão que, também ele, mais cedo ou mais tarde terá de fazer.

Conheça o seu perfil político

Conheça o seu perfil político e ajude esta investigação:

http://www.euprofiler.eu/language/engl/

Yes we Can, III



O exemplo deve partir de cima. O recente tratado EUA - Rússia, que substitui o acordo START, vem promover um novo esforço de redução do arsenal nuclear das duas potências, desarmando parcialmente uma acrimónia crescente entre a América/UE e a Rússia, que a ex-administração Bush parece ter a certa altura decido patrocinar.

Seá apenas um início, mas o caminho faz-se andando...

Yes we Can, II

No passado 4 de Junho o presidente Obama lançou um apelo de convergência civilizado entre o mundo Árabe e o mundo Ocidental, afirmando que a América e o Islão partilham de princípios comuns de justiça, progresso, tolerância e dignidade humana.

Numa acção sem precedentes, Obama endereçou também o Irão e, ainda que a sua comunicação tenha sido censurada nesse país, a prazo haveremos de ver os seus frutos.

Com isto, o novo presidente em funções reconhece a importância do diálogo entre os povos e começa a apagar os nefastos efeitos de acrimónia gerados da concepção "pré-histórica" de um "eixo do mal".

A "marreta" é sempre a opção de último recurso.

Yes we Can!


Depois de quase uma década Americana de atraso e negação das causas e efeitos dos fenómenos relacionados com o aquecimento global, eis que agora, tudo começa a mudar, finalmente!


Momento Delicious


Para mais tarde recordar (in JNegócios de 30 de Junho):

"Em declarações ao jornal "i", a publicar na edição desta terça-feira, o actual presidente do Conselho de Administração da Portugal Telecom critica Manuela Ferreira Leite relembrando um caso que o envolveu a ele, quando era administrador da Lusomundo Media (então no grupo PT) e a então ministra das Finanças do Governo PSD.

"Já parecem esquecidas as tentativas de intervenção do governo PSD na Lusomundo Media que levaram à minha demissão", afirma ao "i", revelando que foram pressões políticas que o afastaram da empresa.

Granadeiro indigna-se ainda com a surpresa da presidente do PSD, afirmando que foi Manuela Ferreira Leite que, como ministra das Finanças, obrigou a Portugal Telecom a comprar a rede fixa (que era do Estado) para dessa forma realizar receitas extraordinárias que equilibrassem o défice orçamental."

Os combustíveis mais caros antes de impostos!



Agradeçam aos ex-governos PSD o facto de terem liberalizado o mercado da distribuição de combustíveis sem ter promovido, primeiro, o desenvolvimento de um mercado concorrencial (e se isso não foi uma de neoliberal, então o que será?).

O resultado é este: pagamos, segundo estudo do JN, os combustíveis mais caros da Europa (a 27!), antes de impostos.

Deixem-me repetir: antes de impostos!... os preços mais elevados de entre 27 países!

Ferreira de Oliveira, quase ao mesmo tempo em que se tornava pública esta verdade inconveniente, veio tentar serenar as águas com alusões a expectativas de baixas de preços no curto prazo.
O que me veio imediatamente à cabeça foi a imagem daquele tristemente célebre ministro Iraquiano da propaganda...

A castidade histérica do PSD


Afirmava Fernando Sobral (in Jornal de Negócios, 8 de Julho) que:
"O PSD tem um tabu de que ninguém quer falar. É um mistério simples, daqueles que não precisam do génio de Sherlock Holmes para o decifrar: se ganhar as eleições, o que fará? Não é que isto seja fundamental, porque o País está habituado...
Mas o problema é que, nos últimos dias, já escutámos duas versões diferentes sobre o que o PSD pensa do que fez o PS. Manuela Ferreira Leite já ameaçou que rasgava tudo o que o PS pôs em papel. António Borges, num gesto mais bondoso, afirmou que o PSD não iria riscar tudo o que foi feito. Entre rasgar e não riscar tudo há, claro, um fosso.
Para lá desta pequena confusão estratégica, que demonstra algum desencontro nos corredores do local onde se encontra a liderança do partido, começamos a ter a noção de que o PSD se está a aproximar aos trambolhões do poder. O PSD pode considerar que basta não se mexer, e o PS continuar a fazer trapalhadas, para que o poder lhe caia nas mãos. Mas isso não ilude o essencial: para ser poder, o PSD precisa de precisar o que quer fazer. Não basta dizer que é contra o TGV. É preciso que explique claramente qual é a sua opção económica, política e social. Coisa que, aparentemente, não sabe.
O PSD tem, neste momento, um conjunto de ideias do que não quer. Mas ainda não sabe o que quer. É um projecto temível para apresentar ao eleitorado: pedir-lhes que troquem o caos organizado existente pela anarquia desorganizada do PSD. Entre estas opções, o País desfalece."
Desta conversa do Fernando Sobral (F.S.), retenho alguns apontamentos:
1 - A admissão de que o PSD se está a aproximar do poder "aos trambolhões", ou seja, seguindo a tradicional receita Lusa que tem precedido os maiores desastres da nossa história.
2 - A certa altura F.S. parece querer afirmar, sem se perceber que esteja a usar de ironia, que a ausência de um programa governativo do PSD não é tão grave quanto isso. Como é possível querer branquear a ausência de um programa governativo do PSD, a meros dois meses de eleições?
3 - F.S. afirma ainda que o PSD sabe sobretudo o que não quer. Pessoalmente, já nem nisso acredito! Basta olhar às evidências do que tem sido o comportamento do partido nos últimos 7 anos, para não ir mais longe.

Despudoradamente Absurdos



Pela segunda vez desde o auxílio do Governo norte-americano face à sua situação financeira desesperada, e apenas 4 meses após um primeiro escândalo, a AIG prepara-se para dar renovado mau exemplo de governação privada.

Com efeito, soube-se na passada sexta-feira (11 de Julho 2009) que a AIG se preparava para entregar mais uns quantos milhões de dólares (dos contribuintes norte-americanos) a meia dúzia dos seus executivos.

Viva a incompetência, o falhanço, a estupidez!

Sobre a condenação da ERC ao Jornal da Noite da TVI


Regulação, ou condicionamento?

Os membros do Conselho Regulador concluiram na altura que era seu dever “instar a TVI a cumprir de forma mais rigorosa o dever de rigor e isenção jornalísticas, aqui se incluindo, nomeadamente, o dever de demarcar ‘claramente os factos da opinião’ (artigo 14.º, n.º 1, alínea a) do Estatuto do Jornalista”.

Esta advertência algo rara - que pecará talvez por defeito de abrangência - suscita algum interesse, mas não posso deixar de pensar que dificilmente se tratará de mera coincidência.
A não ser coincidência sinto algum pesar, porque falta em Portugal mais isenção e autonomia política de facto nas instituições reguladoras. "Bem prega Frei Tomás"?

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O homem de quem se fala



Em tantos séculos de história nacional, nunca um português foi um dia tão bem recebido fora da sua terra, ou tão falado no mundo. Seja o que for que venha a seguir, Cristiano Ronaldo conquistou um lugar definitivo na história do futebol e para a história desportiva do seu país.

Forças de Bloqueio: regresso ao passado?

Quando Soares vetava algumas iniciativas legislativas governamentais de Cavaco recordo-me da enorme polémica e arrastar de "tabus", "forças de bloqueio" e quejandos pela imprensa nacional.

Agora, o actual Presidente da nossa querida República, Cavaco, parece apostado não só em entrar para o Guiness dos vetos como em fazer gala de se furtar a explicações públicas que fundamentem as suas razões de forma a que qualquer português entenda.

Primeiro foi a obscura questão dos Açores - que deu o tom para o que temos vindo a assistir - agora, os segredos de Estado (talvez mais grave, porque se trata de uma área que é urgente reformar).

Nada temos contra o exercer do direito de veto da Presidência da Républica. No entanto, num país "normal", seria exigido que explicasse de forma mais clara as suas razões.

Afinal, o que quer o Presidente dizer com:

"Sem prejuízo do mérito de algumas alterações agora adoptadas, o diploma em apreço contém soluções normativas que se afiguram graves para uma salutar articulação entre órgãos de soberania e para a interdependência dos poderes do Estado, bem como para a própria salvaguarda dos interesses que o segredo de Estado visa proteger, contemplando mesmo formas não admissíveis de condicionamento ou de contrição do exercício dos poderes dos vários órgãos de soberania" ?

Se não começa a explicar-se melhor dir-se-á em menos de nada que "Veta, para que Exista"...

O manifesto dos 52, ou contra manifesto Nº1


Porque em democracia existe o direito ao contraditório, pode começar a ler-se sobre a primeira reacção ao manifesto dos 28 na "i":

O manifesto dos 28


De tudo o que tenho visto, ouvido e lido sobre o manifesto dos 28 retenho sobretudo a perspectiva que sobre ele tem Henrique Neto, quando afirma em resposta a Rui Tavares o seguinte:


"A razão principal porque não concordo com muitas das obras previstas é por serem mais obra pública desligadas de qualquer estratégia integrada de desenvolvimento. Pior, desligadas entre si, planeadas e justificadas de forma avulsa. "


Neto percebeu o nó górdio da questão sendo que isso não anula o timing da intervenção dos 28, que peca por tardia e se presta a demasiadas manipulações politiqueiras, nem o facto de se continuar a notar nalguns dos signatários a ausência de qualquer ideia sobre o que possa ser essa tal estratégia integrada de desenvolvimento.

Contradições neoliberais


A variante mais "selvagem" do capitalismo, defendida pelos neoliberais, está pejada de contradições completamente absurdas:


- Defende o mérito, mas é falha na sua avaliação concreta

- Promove a ascensão social através do trabalho, mas cultiva a estratificação social

- Propagandeia valores, mas não se importa com o dumping social Chinês ou Indiano

- Exige lealdade, mas pouco se importa quando gera desemprego e instabilidade social

- Defende a flexibilidade, mas é avessa a praticamente todas as formas de regulação social

- Baseia-se a priori na eficiência da gestão, ao mesmo tempo que defende pára-quedas dourados

- É contra (quase) todas as formas de Estado, excepto quando precisa dele desesperadamente

- Abusa da palavra inovação, ao mesmo tempo que olha com desdém a actividade intelectual

- Pretende moldar o público ao seu gosto, mas nem sempre convive bem com a democracia

- É a favor da liberdade de expressão, desde que não haja manifestações contra as suas negociatas

- É a favor da concorrência, mas esforça-se sobretudo para consolidar monopólios

- Afirma-se como um garante da liberdade de escolha, se for ela a definir essa escolha

- Queixa-se da qualidade da educação, ao mesmo tempo que pugna pelo efectivo isolamento de quem não a pode pagar

- Quer discernimento nas famílias, mas é a primeira a procurar os beneficios do seu endividamento

- Quer famílias maiores e fortes, mas exige que caminhemos para semanas de trabalho de 65 horas ou mais
...


Sempre que entra pelo abuso e pela destruição de valor social, o mercado não tem razões para existir e mina os fundamentos da sua própria continuidade libertária.

domingo, 5 de julho de 2009

Cortinas de fumo


Apreciei a retirada apressada dos sectores "rigoristas sociais-democratas" na sequência da refrega do caso PT - TVI.
Terminada a troca de insinuações podemos agora contemplar que a Senhora, afinal, dificilmente poderia ter tido "a certeza absoluta" que o PM sabia do negócio.
Um tanto divertido, foi ter visto os regimentos dos "rigores", da "moral infalível e dos bons costumes", a debandar desorganizadamente logo que atacados com algum vigor pelos "Granadeiros"...
Foi rísivel a resposta da Senhora ao contra-ataque: qualquer coisa como "se algum Governo de que fiz parte tentou influenciar os meios de comunicação social, fez mal".
E pronto, ela pensa que basta afirmá-lo para que tudo lhe seja perdoado e esquecido.
Arrogante, Sócrates?... é relativo.
Como de costume, os portugueses ficaram a saber o mesmo sobre os factos (obrigado, minha Senhora), finda mais uma oca e despropositada novela (em que até - novamente - o Presidente da República participou).
O que o PSD ainda não parece ter percebido é que cada semana passada com mais uma historieta sem nexo, sobretudo sem que apresente cabal proposta programática de alternativa governativa, talvez seja mais nefasta para o país do que alguns dos tais projectos mégalómanos que tanto critíca.
É um desperdício, e é pena. Mais a mais, porque a Senhora já deveria ter reparado que esse tipo de técnicas - tão ao agrado do Grand Old Party americano - já deu o que tinha a dar, felizmente para a humanidade: "quem tem telhados de vidro não atira pedras aos vizinhos".
Ora os vizinhos parecem estar agora bem preparados... portanto, talvez seja altura para a Senhora fazer os seus trabalhos de casa e apresentar de uma vez por todas aos portugueses o seu programa governativo.
Gostava sinceramente de o ler em detalhe, a alguma distância de eleições.

O apoio de Sócrates a Barroso


O apoio de Sócrates a Barroso, que tantos questionaram, tem para mim as seguintes razões de fundo:

1. O acesso a informação priviligiada sobre o que se passa na UE, de forma directa, ainda que por vias informais ou de "contexto".

2. Mitigar os efeitos políticos que uma falta de apoio a essa recondução poderiam ter, caso fosse o Governo português o único a não expressá-lo (Sócrates mostrou estar bem informado...) .

3. A oportunidade para influenciar a condução dos trabalhos da comissão no que se refere às pequenas economias europeias como Portugal, quer por via informal quer por antecipação, colhendo disso benefícios para os negócios estrangeiros da nação.

Por mais que Barroso deixe a desejar, Sócrates mostrou-se pragmático e inteligente, não tomando a árvore pela floresta.

Resta acrescentar que, sendo isto uma tese, vale a pena continuar a seguir os acontecimentos respeitantes a este tema (recondução de Durão Barroso).

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Sócrates: erros, virtudes e vitórias.


Sócrates tem os seus defeitos... É demasiado coloquial e sobranceiro em quase todas as entrevistas ou comentários públicos que faz, dando azo a que se lhe coloque demasiado facilmente o rótulo de arrogante. Tem sido precipitado nalguns anúncios públicos perigosamente identificáveis como propaganda. Mostra segurança de oratória em quase todos os discursos políticos, o que é motivo de inveja para os seus adversários. Tem sido relativamente coerente ao longo do seu mandato, o que irrita a sua principal oposição. É determinado, o que se confunde com obstinação (de que não carece...). Não cede perante ataques de carácter, o que o torna alvo cada vez mais apetecível. É irritável e por vezes irrascível (como qualquer outro latino). Tem vontade de mudar efectivamente o país para melhor, o que confunde uma cultura social velha de 800 anos...
Sócrates cometeu erros de governação, alguns com gravidade. Defendeu teimosamente uma reforma da Educação, a partir de certo momento sobrepondo o valor da soberania do Ministério da Educação à sua justeza de acção (deveria ter começado por reformar o próprio Ministério). Teimou numa reforma da Justiça que não a tem tornado nem mais célere nem mais justa (o que deveria ter presido como principal objectivo). Não tem sabido contrariar o crescendo de criminalidade com a devida eficácia, o que pode ter consequências muito difíceis de reverter no futuro (deveria reconhecer as evidências para além das estatísticas). Em nome da racionalização de meios, deixou que se extinguissem serviços de Saúde essenciais sem que as alternativas estivessem montadas (emendou a mão apenas parcialmente, e já tarde). Em nome da manutenção de expectativas recusou reconhecer a face da crise a tempo, ou pelo menos em Setembro de 2008 (deveria ter sido mais verdadeiro e directo em tempo útil). Foi talvez complacente ao não lutar mais claramente pela atracção de investimentos externos em antecipação à crise "sub-prime". Encetou, ou tentou encetar, uma resposta pública à crise talvez demasiado diversificada e intermediarizada pelo Estado (cedeu à forma, penalizando a eficácia das medidas). Não foi suficiente na redução da despesa pública nem foi suficientemente claro nos critérios de intervenção na economia real pós-crise (deixou que a situação continuasse a dominar)...
No entanto, Sócrates tem demonstrado virtudes evidentes e conseguido sucessos respeitáveis. Conseguiu - ou continuou - um trabalho conducente a uma eficência notável da máquina fiscal (essencial a qualquer Estado de Direito moderno). Foi bem sucedido na liderança efectiva do seu Governo e dos seus Ministros (coisa rara...). É determinado mas não abdicou de se rodear de pessoas competentes (o que demonstra inteligência, maturidade e preparação para a coisa pública). Re-introduziu uma linha mais clara de orientação para o país, sem deixar de reconhecer a necessidade de manter o Estado Social, e rejeitou a forma populista de estar na política (que caracterizou boa parte do Executivo anterior durante anos, e que poderia ter facilmente adoptado). Introduziu o precedente sistemático de revalorizar o debate Parlamentar (debates quinzenais). Mesmo em momentos de forte pressão, soube evidenciar quase sempre um sentido de direcção claro (embora por vezes discutível), uma forte determinação (comum nos líderes de grande gabarito, mas ainda raro em Portugal). Desejou e trabalhou para um Estado mais racionalizado, mais coerente, e mais respeitado (o que é importante para uma nação que se preze). Tem apoiado clara e inequivocamente a Ciência, e defendido a formação ao longo da vida (faltando porém fazer o mesmo com a Cultura, incluindo as Ciências Sociais). Mostrou vontade de reduzir a despesa pública sem desmantelar o Estado Social (uma tarefa nada fácil e que chegou a conseguir antes da crise internacional estalar). Teve uma acção mais rigorosa relativamente aos subsídios de desemprego (que a Direita teria muito simplesmente eliminado). Contribuiu para agilizar as leis do trabalho (uma ferramenta importante para enfrentar situações como as que vivemos). Mostrou vontade de introduzir maior disciplina e rigor na inspecção às actividades económicas, antecipando-se neste caso à relevância maior da regulação de mercado, hoje necessidade tão evidente (muito embora pecando por vezes por exagero nalgumas áreas e por defeito noutras). Conseguiu eliminar a base de constantes ataques à própria existência da Segurança Social, por via da sua racionalização. Deu passos decisivos e mais coerentes para modernizar as forças armadas (ainda que apenas recentemente tenha começado a dar mais valor ao reconhecimento público da sua dignidade). Colocou em marcha reformas importantes de organização da Administração Pública (que a oposição tenta ignorar, mas sabe terem sido correctas na sua maioria). Agilizou a criação de empresas (embora não tenha desligado o "taxímetro" em relação às PMEs, como seria desejável). Tem investido mais seriamente na informatização da Administração Pública e mesmo da sociedade civil. Tem dado passos para unificar e modernizar as Polícias (ainda que com precalços pelo meio). Mostrou vontade para iniciar o processo de reforma estatutária das Universidades, no sentido da sua modernização e maior independência do erário público (como nenhum outro Governo antes o tentou). Tem contribuido para criar condições favoráveis à efectida paridade de género. É a favor da convergência para a igualdade de oportunidades em detrimento duma sociedade de oportunidades meramente hereditárias. Contribuiu para melhorar a articulação e os meios relacionados com a Protecção Civil (combate a fogos credível e início de preparação consequente para situações de ocorrência sísmica grave). Baseia-se numa concepção estruturada para o País, e mostra pelo menos vontade de agir e transformar (ainda que em demasiadas áreas ao mesmo tempo). Conseguiu contribuir para evitar o que facilmente poderia ter resvalado para uma crise bancária muito grave. Não sendo "puro", também não cede a meros interesses corporativos ou económicos com demasiada facilidade. Falhou na reforma da Educação - avaliação - mas acertou no iniciar do processo e nalguns dos objectivos a atingir. Não aposta nem no medo, nem no regresso ao passado, nem no imobilismo de situação (ao contrário da principal oposição). Não é de modas, nem se limita a dizer o que "pertence".
Atendendo à situação do País quando lhe pegou, e tendo em conta as surpresas internas e sobretudo externas que lhe têm dificultado a tarefa, há que lhe reconhecer uma grande capacidade para a condução da coisa pública.
Pura e simplesmente, não me parece existir alternativa melhor.

PSD: Vitória de Pirro nas Europeias


Demorei algum tempo a anotar algo sobre os resultados portugueses das mais recentes eleições para o Parlamento Europeu, em parte porque julgo ter sido mais merecedora de nota a vitória da direita à escala Europeia.
Tenho para mim que os resultados na Europa podem ter resultado da falta de reflexão e conhecimento dos cidadãos das raízes políticas desta enorme crise do (neo)liberalismo.
Desconhecedores das origens da coisa, a maioria dos cidadãos - muitos deles bem desligados do debate e das ideias políticas contemporâneas - terão optado por castigar o centro social-democrata mais à mão, e procurar refúgio alternativo nos contra-poderes do momento, ora muito à esquerda ora demasiado à direita, com isso abrindo uma brecha à continuidade efectiva da direita à frente dos destinos da Comissão Europeia.
O resultado destas eleições oferece mais evidências de que a Europa segue efectivamente com atraso o que acontece nos EUA, mas agora com mais do que um mandato de atraso. Não esqueçamos que são as pessoas da "Cimeira das Lajes", já banidas do poder nos EUA, que ficarão à frente da coisa máxima Europeia, durante uma época turbulenta que é crítica à sua continuidade de projecto.
Não esqueçamos também que ao centro-esquerda por essa Europa fora ainda não se vislumbram quaisquer personagens à altura sequer do cão de água português de Obama.
Em Portugal, quem votou refugiou-se igualmente nas margens e puniu duramente o Executivo.
Estranho é que o PSD veja na sua escassa vantagem, perante uma abstenção diluviana, a legitimidade suficiente para colocar o Governo em cheque ou, sobretudo e mais tristemente, para alentar sequiosamente uma nova onda de arrogância populista que já se vai fazendo sentir.
É preciso que o PSD se lembre que, apesar de tudo e ao contrário do que sucedeu na Europa, a esquerda ganhou em Portugal por uma larga margem, o que representa um veto efectivo à maioria das teses (neo)liberais na forma tentada do PSD.
Seria sensato que o PSD reconhecesse que agora que o Executivo foi castigado, é possível que o voto útil à esquerda se venha a reforçar, pelo menos nas legislativas. E seria de esperar, portanto, muito mais bom senso do que a continuidade da novela politiqueira de fraca qualidade a que temos vindo a assistir, apesar dos erros do PS e do Governo.
É absolutamente lamentável que o PSD não só se recuse a apresentar um programa governativo claro aos portugueses - sinal de que navega à vista - como sobretudo se defina apenas e somente pela negativa, pela demolição "dos outros".
Em pouco ou nada do que vai propondo o PSD se sente um rumo claro, uma coerência de pensamento capaz de gerar uma governação capaz e com propósito; em quase nada do que diz se sente ânimo, alento, superação, fé na capacidade dos portugueses, alegria de viver, positivismo, vontade de construir e de desenvolver...
A propagação do medo, a perseguição a pessoas e instituições, a obcessão na crítica a acções isoladas ou meras declarações desta ou daquela personagem, os valores "ocos", eis a prática da sua doutrina que nos é oferecida diariamente.
É certo que comparando com as Europeias de 2004 o PS, ao perder cerca de 600.000 votos foi sem dúvida castigado, mas o PSD ganhou zero votos (teve mais 171 votos do que nas Europeias de 2004, para ser rigoroso), e isso representa igualmente - a meu ver - uma derrota enorme, porque seria de esperar mais daquilo que se apresenta como a pricipal alternativa de poder.
Por outro lado, a diferença efectiva entre os dois maiores partidos foi inferior a 183.000 votos, o que não deveria permitir ao PSD, em boa verdade, sentir-se avalizado pela nação para travar a legitimidade de um Governo eleito por quase mais 1.000.000 de votos do que o PSD (em 2005).
Será portanto apenas sensato, à luz dos factos, que o PSD se remeta ao seu devido lugar.
Ganhou as Europeias, é certo, mas conseguiu apenas uma vitória de Pirro.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Inquérito ao Banco de Portugal


A Assembleia da República também tem o dever de esclarecer o seguinte:

1) Possuía, tanto sobre o caso BPN como sobre o caso BPP, ou possuiu em algum momento, o Banco de Portugal evidências claras das malfeitorias em curso nessas instituições?
2) Em caso afirmativo (possuía provas ou perto disso), quais? Em que momento? Nesse caso, tratavam-se de provas inequívocas, indícios, ou apenas dúvidas não cabalmente fundamentadas?
3) À luz da lei e dos estatutos do Banco de Portugal, o que deveria ter sido a acção óptima do Governador, em face das evidências disponíveis?
4) Em caso negativo (existência de indícios desconexos ou dúvidas não cabalmente fundamentadas), que recursos legais e instrumentos existiam à data à disposição do Banco de Portugal para a acção no sentido da defesa do interesse público?
5) À luz dos pontos anteriores, em que se baseia concretamente o pedido insistente de demissão do Governador avançado por alguns deputados? À luz dos factos e das provas materiais e testemunhos recolhidos, quais foram as graves falhas de Vítor Constâncio, em concreto?
6) O Banco de Portugal, no caso de dispôr de dúvidas não fundamentadas ou pouco mais, tinha todos os meios e recursos para a investigação e fiscalização que lhe competia aprofundar? Realizou-a? Se realizou, terá falhado por falta de conclusividade objectiva ou por omissão? Por alguma suposta conveniência ou por manifesta impossibilidade no apuramento dos factos necessários à acção? Não terá agido mais cedo por clara inércia ou por insuficiente falta de visão sobre a realidade?
7) Finalmente, o que propõe a Assembleia como linhas de orientação para uma supervisão corrigida, com mais ou melhores poderes e meios de fiscalização e penalização, no futuro?

O reputado "trabalho" da Assembleia também tem de passar pelo crivo da sua própria honestidade intelectual e sobretudo do seu compromisso de não instrumentalização política de meros indícios para a chicana política, a perseguição pessoal ou o insulto gratuito a pessoas e instituições nacionais soberanas.

Outra coisa que não isso será mero populismo e pura irresponsabilidade.

No mínimo, tem também de se perguntar porque é que alguns dos membros da Assembleia da República já exigiam a demissão de Constâncio, ainda antes dos trabalhos de fiscalização à sua acção terem começado? O que "sabem" esses deputados de tão factual e importante que não possam muito claramente dizer? Ou será que apenas supõem indevidamente?

Ronaldo, os 93 milhões, e o Presidente


Numa recente declaração foi perceptível a estranheza do nosso Presidente relativamente à galáctica soma paga pelos espanhóis a troco de Ronaldo.

Pode ser que o intuito tenha sido o de alguma réstia de solidariedade para com a estupefacção dos mais de 250.000 portugueses que ainda ganham o salário mínimo, ou de quase todos os outros, desempregados incluídos. Pode ser. Mas é uma estranha forma de se ser solidário...

Porque não fala o presidente mais vezes das enormes e injustificáveis diferenças de compensações entre alguns todo-poderosos directores-gerais e presidentes de empresa e os seus colaboradores?

Falou nisso uma vez, que me lembre (e bem!), mas para não mais voltar ao tema (muito mal!), porque ousou fazer ruborizar uma boa parte da direita à moda antiga. Chama-se a isso a técnica "Boi para Piranha": sacrifica-se uma vaca às piranhas, para fazer passar a vau toda a manada em claro...

Porque é que quando se fala nesse assunto tabu vêm logo alguns dizer que se trata de "inveja social" ou "do mercado a funcionar" (recusando questionar porque têm de ser tão caros gestores que arrastaram, e continuam a arrastar nalguns casos, empresas para o cadafalso), sendo parte desses tantos os mesmos que vêem com tanta indignação a dita transferência multimilionária?

A explicação é só uma: alguns mamões do costume sentem-se indignados por haver quem, na sua torta escala social estando muito mais abaixo, consiga arrebanhar mais do que eles próprios.

Então o mercado não pode funcionar para o Ronaldo? Ó Senhor Presidente... sinceramente!

Sinto (quase) mais orgulho em que tenha sido um português a alcançar uma das mais caras, ou a mais cara, transferência do mundo, do que ter quem temos à frente dos destinos da Comissão Europeia. É que o primeiro conseguiu-o por mérito (goste-se ou não do seu estilo de vida e personalidade) e o segundo mais por conveniência e docilidade de carácter; o primeiro sempre vai marcando golos bonitos de se ver...

Para além disso suponho que Ronaldo deposite no BES, mas quanto a Barroso... who knows?

Em suma, o que é que um Presidente da República tem de se pronunciar publicamente sobre a transferência de um jogador português - por acaso até depositante da República a que o Senhor preside - acordada entre dois clubes privados?

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A Derrota

Em contra-mão à época de esperança que se vive além-mar, nos EUA, e sobretudo depois de 8 maus anos de influência Bush no mundo, e do desastre económico neoliberal, eis que a Europa não-abstencionista se resigna estranhamente à direita.

Será que se trata de mais um episódio de quem segue com atraso o que se passa no novo mundo? Será esta a face da verdadeira "velha Europa"... ?

Não se pressente nesta inflexão uma maior união da Europa... a direita sempre conviveu mal com a noção do colectivo... o que me leva a pensar que isto seja mau presságio para a união política federal de que a Europa precisa. Veremos.

Esta vitória da direita é resultado de muita coisa, mas também:

1) Do desinteresse de vastas camadas de população nas suas democracias nacionais (sobretudo entre os mais jovens), o que confirma uma crise profunda das instituições e dos poderes, percepcionados como distantes, senão mesmo initeligíveis.

2) Do realçar de certos nacionalismos por culpa da abstenção e de renovadas difusões de receios excessivos face à imigração e à abertura ao exterior, de um modo geral, propagados de forma oportunista pelas extremas-direitas, que têm tido nas crises mais profundas o seu maior aliado.

3) Do falhanço das políticas moderadas, de "centro", supostamente mais "europeístas", na antecipação e contenção mais eficaz dos efeitos da crise.

4) Da conotação política de "Bruxelas" com "burocracia", um mal erradamente percepcionado como sendo essencialmente da responsabilidade da esquerda.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Marinho Pinto 3 - "Elite" de Lisboa 0

Quem viu o "prós e contras" da RTP1 na passada madrugada do 2 de Junho concerteza não deixou de perceber que afinal a luta de Marinho Pinto na Ordem dos Advogados é apenas capaz de ser semelhante à de tantos outros portugueses que preservam algum respeito pela verdade e pela justiça, no seu combate por um Portugal menos "faz de conta" mantido por grupúsculos que ainda não se habituaram bem ao conceito de democracia.

Foi engraçado ver exposta - à força de investidas do "granito do Marão" e perante uma estranha ruborescência de sorriso amarelo - gente de tão pequena estatura e falseado carácter "urbano".

"Só se perderam as que caíram no chão", e se o estilo não foi o da música barroca do costume, tanto pior para os duros de ouvido: já vai sendo tempo de escutarem Stravinsky.

Agredir pessoas por via da desonestidade intelectual, da injúria e da intriga, da omissão e da perfídia, da espionagem ilícita da vida privada, sem outros motivos aparentes que não a ambição e a inveja, é infinitamente menos "urbano" de se ver que o mais rude granito da Serra.

Mais Marinhos Pintos era coisa capaz de ajudar a livrar o país dessa gosma a cavalo de gentio, indivíduos de valores flácidos, eternos aduladores de uma decadente e corrosiva "Pax Romana"...

Dois excertos de opinião do sempre incisivo Baptista Bastos:

"Não me parece que Marinho Pinto haja sido tocado pela desonestidade, pela indecência, pela indignidade, ou movido por interesses cavilosos. Querem-no brunido, direitinho, ajeitado, dentro da esquadria: um artesão formal da aplicação das leis e seu complacente vigilante. Ele é, definitivamente, o contrário dessa banalização precaucionista que atingiu todo o tecido social e garantiu a instauração da indiferença, do abandono cívico e, finalmente, da coisificação do medo. "

"Dizem que ele acusa sem nomear. Mas, os que dizem, nomeiam-no sem rigorosamente o acusar de coisa alguma. Convém interrogarmo-nos sobre o que nos não tem sido dito."

sábado, 30 de maio de 2009

Burlesconi!

O paladino italiano da moral e dos bons costumes...

A Senhora e o "Chip do Terror"


Tenham medo! Tenham muiiiiiitooooo medo!
A senhora aproveitou mais um fim de semana sem quaisquer propostas de Governo para assustar mais uma vez os portugueses recorrendo à tentativa de analogia primária entre a matrícula electrónica e uma mentalidade "Big Brother".
É absolutamente lamentável que a espécie de vazio cerebral em que a senhora parece viver (cartoon de António) recorra ainda e mais uma vez ao medo, uma característica que parece partilhar com todos os ditadores e aspirantes a ditadores incluíndo o "Botas", também conhecido por Salazar.
Melhor serviço teria a senhora feito se em vez da tentativa de instilação do medo tivesse explicado aos portugueses porque é que o nosso presidente não vetou aquilo que parece ser uma mera negociata a favor de uma empresa praticamente monopolista em Portugal.
Porque é que o presidente, com aquele inigualável jeito para dizer o que "pertence", se terá ficado "pelas dúvidas"....
O que está em questão não será tanto uma deriva securitária para o totalitarismo - se bem que se a direita fosse ao menos fiél a ela própria haveria de reconhecer que a segurança básica dos portugueses e o trabalho das forças policiais poderá melhorar com a introdução do dispositivo de matrícula electrónica, se devidamente utilizado - mas mais uma possível cena de opereta de um certo corporativismo.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Debater a Europa

Alguns (se não todos) os partidos políticos devem entender que os portugueses são apenas uma espécie de americanos mais espertos, mas ainda assim muito burros.

Digo isto porque a poucos dias de eleições para o Parlamento Europeu o debate sobre a Europa... quase não existe, ou é tão pueril que mete dó.

O que eu gostava de se ver debatido:

- Deve a Europa caminhar ou não para uma Federação?
- Qual a melhor forma para o alcançar?
- Como aproximar a Europa das pessoas?
- Como fazer diminuir a crescente Eurocracia que grassa em Bruxelas?
- Por que temas se batem cada uma das principais famílias políticas no PE?
- Deve ou não o Presidente da Comissão passar a ser eleito por sufrágio universal a 27?
- A PAC é para manter como está?
- Qual a política e os instrumentos para uma consequente Defesa comum?
- Em que sentido pode evoluir a pasta dos Negócios Estrangeiros da União?
- Quanto mais temos de esperar para uma efectiva união política?
- Queremos dimimuir a Europa Social, ou ampliá-la? O que pensa sobre isso Barroso?
- Irá a Europa, na defesa do interesse dos seus cidadãos, bater-se por uma globalização ética?
- Irá a Europa no sentido das 65 horas para que possamos competir com a "escravidão" Chinesa?
- Em que pode entender-se a Europa com os EUA, na defesa dos valores democráticos no mundo?
- Deve a Europa afirmar-se como espaço social e ético único, ou deve ceder à "real politik", aos interesses de circunstância?

- Depois da derrota burocrática da Agenda de Lisboa, que medidas pragmáticas deve desenvolver a Europa para promover a Ciência, a Cultura, as Artes e a Inovação?

O que será que pensam destas matérias os nossos candidatos ao "El Dorado" de Bruxelas?

Muito pouco pelo que se vê. Frases como "pelo interesse nacional eu assino por baixo", apenas revelam a habitual vontade de passar uma imagem de um pseudo-patriotismo sem qualquer conteúdo prático.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

A Sexta Coluna

Um texto de Leonel Moura:

"Concebida inicialmente para servir os militares, a Internet, tal como a conhecemos, emergiu à margem de todos os poderes. O poder político não se apercebeu que nascia um novo meio de comunicação, que pela sua natureza, rizomática, depressa se tornaria incontrolável.

O poder económico levou muito tempo a entender "como se podia ganhar dinheiro com aquilo" e deixou que a net se desenvolvesse numa lógica não comercial. Intelectuais, académicos, gente da cultura começaram por a rejeitar e depreciar em nome da arrogância habitual de quem se considera ser o guardião do saber. Para mais, ninguém, de tanto pensador e especialista que ocupa telejornais e a nossa paciência, foi capaz de antever a importância da rede.

Assim, graças a esse desinteresse geral, foi possível montar a Internet segundo um modelo absolutamente inovador na longa história da sociedade humana: o da liberdade. De tal maneira que até hoje continua a não existir nada tão livre como a Internet.

Tivesse ela sido criada por governos e assentaria num vasto pacote de leis restritivas, com imensos mecanismos de censura e bloqueio, policiamento, limites territoriais, bilhete de identidade, enfim, o habitual. Mas como os poderes demoram sempre muito tempo a reagir ao realmente novo, a teia foi alastrando, ultrapassando preconceitos e fronteiras - chegando mesmo àqueles lugares inóspitos onde ainda mandam ditaduras e totalitarismos - ligando pessoas e cérebros na sua criatividade e plena expressão livre. Hoje a net constitui um gigantesco organismo vivo, uma nova entidade planetária que representa um novo estádio da civilização humana.

Contudo, a partir do momento em que a Internet se tornou uma realidade incontornável logo surgiram em força os seus inimigos. Na primeira linha os homens de negócios. Incapazes de perceber o potencial de um cérebro em rede, sempre a encararam, até hoje, como uma mera traficância de venda a retalho. Muito poucos passaram da mercearia dos acessos.

Logo a seguir todos aqueles, e são muitos, os que odeiam a liberdade. Não há dia que não se tente demolir a net jogando com o sujo argumento do medo. Perigos, fraudes, spam, pedofilia, pornografia, desvio das crianças, arma perversa dos adultos, terrorismo, insegurança, pirataria, vírus, tudo serve para tentar reduzir a Internet a mais um canal de televisão. Ou seja, um meio de comunicação alienante, dominado pelos interesses privados, controlado pelos poderes políticos, de liberdade condicionada.

Ainda recentemente o Parlamento Europeu tentou impor uma directiva que para além da introdução da censura - sob o pretexto da defesa dos direitos dos autores - pretendia conceder aos fornecedores de serviços a possibilidade de limitar o acesso a determinados sites. Ou seja, passaríamos a ter de comprar pacotes de sites, um pouco como hoje se compram pacotes de canais de TV. Isto, que significaria o fim da Internet, felizmente não passou. Mas eles voltarão à carga.

A questão não é moral nem ideológica. A Internet revelou ser um poderoso meio de evolução positiva das sociedades e dos indivíduos. Precisamente por ser extremamente livre, permite a expressão de múltiplas e muito diversas ideias, más e boas naturalmente, mas que no seu conjunto geram uma dinâmica de criatividade única na história. Por outro lado, tendo-se tornado na grande enciclopédia que reúne praticamente todo o saber acumulado pela humanidade, assim como lugar de divulgação por excelência do novo saber que vai emergindo, representa um poderoso acelerador de conhecimento, inovação e desenvolvimento tecnológico. E, por fim, a sua grande abertura e interconectividade permitiu gerar novas redes de relacionamento social, aproximar pessoas, fomentar a cooperação, gerar novas solidariedades.

Pretender introduzir mecanismos de censura e impor limitações, não é por isso só um atentado às liberdades, é sobretudo uma perfeita estupidez que só pode levar a sociedade a regredir.

Manter a Internet livre não é uma simples reivindicação de cibernautas. É a mais importante batalha que se trava actualmente em prole do avanço civilizacional. "

(In)justiças

É de lamentar que o Governo ainda não tenha tirado as devidas ilações sobre as mal sucedidas alterações ao código penal. Não só a criminalidade e a impunidade aumentaram - todos os portugueses o sentem, apesar das estatísticas - como os meios de investigação para a criminalidade mais complexa foram severamente amputados.

Eis um verdadeiro problema que alguma oposição deveria estudar mais a sério.

Outro problema importante diz respeito à assimetria de condições que enfrentam as pequenas empresas face às maiores: o Estado deveria ser mais complacente com todas as micro e pequenas empresas, sobretudo no período que atravessamos.

Não basta que se possa abrir uma empresa na hora, se o Estado se apressa a ligar logo o seu taxímetro implacável. Numa economia tão pequena e tão pouco diversificada como o é a nossa, era fundamental que se incentivassem coerentemente todos os arranques de actividade, toda a iniciativa privada de pequena dimensão.

O país bem disso precisa, mas essa liberdade - sabe-o bem que tenha pequenos negócios - ainda não chegou ao nosso país.

É mais um assunto onde seria de esperar mais afinco das oposições responsáveis e conscientes da realidade.

A Auto-Europa e os Tiranossauros Rex


O senhor Francisco Van Zeller afirmava há dias acerca dos desenvolvimentos recentes na Auto-Europa que “trata-se de centenas e centenas de trabalhadores que acabam de ficar sem trabalho porque alguns querem ser pagos com algumas percentagens e ao sábado”.
Ora aquilo que a VW está a fazer na Auto-Europa, já desde há alguns anos, parece ser lançar periodicamente o espectro do fecho, na esperança de redução do seu pessoal de forma mais contida e incremento da produtividade do pessoal remanescente à custa de laboração mais prolongada.
É preferível aumentar a rentabilidade de uma unidade industrial do que optar pelo seu fecho efectivo, claro. Para mais, pode aceitar-se que isso suceda numa indústria onde a produtividade está gerida ao máximo da eficiência, o que anda muito longe de ser o caso da maioria da indústria nacional.
No entanto, parece-me, o verdadeiro objectivo da VW não se prende apenas como uma necessidade de gestão de curto prazo, antes com medidas de sustentabilidade para conviver com um período de carência de procura que não se adivinha ser curto.
Dito isto, nunca pode ser simpático, nem aceite de bom grado, trabalhar-se "à borla", como o senhor van Zeller pretende que se aceite. Será um mal necessário, talvez, mas daí a aceitar-se como solução inevitável, vai uma grande distância.
O senhor van Zeller não quer que o Governo intervenha. É claro que não. Mas ele, o senhor van Zeller, já pode intervir... E porquê?
Porque a parte medíocre da indústria portuguesa espera tirar do precedente da Auto-Europa os devidos dividendos. Visão? Preparação para o futuro? Nada. Puro situacionismo de curto prazo, típico açoite e castigo, enfim, a solução mais fácil (desde que seja a VW a tomá-la primeiro...).
Atente-se na falta de consciência das declarações do senhor van Zeller: “Em tempos bons tudo funciona bem. A produtividade é muito alta. A qualidade é elevadíssima o que faz com que aquela fábrica seja uma jóia no grupo VW. Se perdem esta característica passam a ser uma fábrica vulgar. E como fábrica vulgar representa 1,3% das vendas da VW. Apaga-se com uma borracha”.
Pode ser que o senhor van Zeller tenha sido promovido a consultor da VW, não se sabe...
O que ficamos a perceber das suas palavras parece ser que, em tempos de vacas gordas, é preciso açoitar-se os mesmos, a bem dos lucros, e em tempos de vacas magras, também é preciso açoitá-los, a bem da sobrevivência.
Eis a versão incontida, da noção de responsabilidade social do senhor van Zeller: a vidinha das pessoas que trabalham nalgumas empresas deve ser considerada tão frágil que a possamos apagar com uma simples "borracha"...
Mas há mais: “não há direito de uma Comissão de Trabalhadores fazer ajoelhar uma empresa só porque quer sábados”. Claro que não senhor van Zeller, mas já há direito a ofender a dignidade de quem trabalha com esse tipo de afirmações fora de tom? Que ajoelhem sempre os mesmos, e de preferência da forma mais humilhante?
Ao insultar e velipendiar a dignidade pessoal e profissional de milhares de colaboradores da VW - varrendo de uma assentada preguiçosos e aplicados, competentes e incompetentes, todos pela mesma fivela - o senhor van Zeller só deita gasolina numa perigosa fogueira. A VW não lhe agradecerá.
Enfim, é a sensibilidade do costume, mas para pior. Meu caro amigo, os tempos já não são os seus. Não parece que o futuro passe por si.

sábado, 23 de maio de 2009

O veto e a falta de debate sobre regras anti-concentração dos media

Sendo que também concordo que uma lei que incentive a pluralidade é muito necessária e um garante importante para a democracia (embora não necessariamente esta lei proposta, que conheço mal), acho estranho o segundo veto presidencial.

Já desde os anos 50 que existem nos EUA leis que previnem contra a possibilidade de concentração exagerada dos meios de comunicação social, que com esse fenómeno perdem isenção, profundidade de investigação e ganham uma notável tendência à instrumentalização de opiniões.

Por isso seria bem necessária, para o presente mas sobretudo para o futuro, uma lei apropriada em Portugal.

Contudo, ninguém o discute seriamente, repetidamente, sobretudo nos meios de comunicação social.


Porque será? Talvez o presidente saiba.

Marinho Pinto 2 - Manuela 0

Que grande derby!

Marinho Pinto, sem papas na língua e dizendo frontalmente coisas que muita gente sente mas cada vez menos gente diz surpreende Manuela, estupefacta e apanhada pelo seu próprio jogo por uma vez...

A campanha milionária do PSD-V

É curioso ver alguns "sociais-democratas" tão consumidos pela obcessão de fazer passar uma imagem de rigor, austeridade, castidade até, para depois constatarmos que, sem qualquer pejo, se preparam para gastar praticamente o dobro de qualquer outro partido em campanha.

Mais de dois milhões de Euros.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Aproximações ao PSD de Sá Carneiro

Uma parte interessante de um artigo de Carlos Santos no blogue do Público:

"Sá Carneiro não era de todo alguém que quisesse caminhar para o Marxismo, isso, como disse, é uma contingência revolucionária. Mas era claramente um Social Democrata. A sua inspiração estava no SPD germânico, e em Helmudt Shcmidt. O PSD foi formado com uma concepção de partido republicano e laico. O laicismo é aqui entendido como concepção que advoga a separação entre o Estado e as comunidades religiosas, e a neutralidade do Estado em matéria religiosa. O seu carácter republicano é explicado pelas suas raízes no Porto. Entre os seus dirigentes o PSD manteve republicanos históricos, e o que ficou conhecida por uma costela maçónica moderada. A sua primeira sede, curiosamente, foi no Grande Oriente Lusitano.Importa aqui fazer a clarificação mais importante. O que é a Social Democracia? Ou, dito de outra forma, o que demarcava o campo de Sá Carneiro, em termos ideológicos? De uma forma sintética e simplificada, é uma corrente de pensamento político que nasce no século XIX a partir do marxismo, advogando contudo a reforma progressiva (em lugar da revolução), pela via legislativa, do sistema capitalista no sentido de o tornar mais igualitário.A Internacional Socialista define social democracia a partir de três pilares para a construção de um Estado Social no quadro de uma democracia liberal, parlamentar e representativa. O primeiro destes pilares é precisamente aa ampliação do conceito de liberdade para além da esfera individual. Implícito está o reconhecimento de que livre iniciativa, e a propriedade privada dos meios de produção - que são reconhecidas - podem resultar em limitações de outras liberdades. Por isso, pela negativa, define-se a não submissão a aos legítimos proprietários desses meios, a não discriminação e a não opressão por formas de poder político. Na prática, a liberdade na social democracia não é confundível com um qualquer conceito de neoliberalismo ou de liberalismo social. Respeitando o direito à propriedade privada e à livre iniciativa económica, vai estabelecer fronteiras que estas não podem ultrapassar designdamente subjugando o que numa linguagem mais marxista se chamaria de força de trabalho.Em segundo lugar, a social democracia compreende no seu ideário a igualdade de oportunidades para todos, mesmo numa óptica de justiça social, isto é, corrigindo situações de partida desiguais, sejam físicas, mentais, ou no campo que nos interessa, económicas e sociais."

Os problemas vistos da perspectiva do Martelo

Para os que pensam como um martelo, todos os problemas parecem um prego.

A analogia não é minha.

A professora... e as orgias

Os nossos media levam tudo para a brincadeira. O que me pareceu grave, muito grave, quando ouvi a gravação da professora que alegadamente discorreu sobre orgias em plena sala de aula não foi apenas o carácter sexual das observações.

Foi tê-las feito com carácter dirigido (a uma aluna em frente de toda a turma e sem o mínimo de respeito). Pior: a professora ameaçou veladamente a turma, e enxovalhou publicamente a mãe da aluna por ser menos letrada do que ela.

Isto só video.

A Senhora virou Benny Hill

À medida que nos vamos aproximando das eleições, surge sempre, em todos os campos políticos, uma séria tendência para a parvoíce.

Embora haja tendências marcadamente mais parvas do que outras.

Nos seus comentários mais recentes, a senhora decidiu brindar-nos com o seguinte vaticínio bem disposto e cheio de ânimo (como de costume): "se o país fosse uma empresa estaria falido". Mais uma pérola!... Ó minha senhora, mas já olhou para as contas dos países neoliberais que tanto defende, ou defendeu? Estão nas lonas, minha senhora!

Para além disso minha senhora, e pela enésima vez: nem o país é uma empresa, nem a gente quer que o seja (pois é minha senhora, era quase assim no tempo do Salazar...).

Concorda-se claramente com a senhora quando diz que o Estado, em vez de se endividar ainda mais para sustentar linhas de crédito para as pequenas e médias empresas - embora não seja por aí que o gato vai ao leite... - deveria simplesmente pagar o que lhes deve mais cedo.

E no entanto, logo a seguir, a senhora diz que o que temos é um problema de (sic) "excesso de procura" (uma teoria digna dos prémios igNobel). Continua a senhora que, como temos "excesso de procura" e a oferta nacional não chega, temos de importar muita coisa, o que agrava as contas nacionais.

Mesmo ultrapassando com muito boa vontade essa absoluta mentira do "excesso de procura", lanço aqui um quizz. Devemos deduzir do raciocínio da senhora que:

a) Com a senhora no poder, ninguém mais poderá andar de automóvel a não ser que tenha sido cá produzido (os sovietes também pensavam assim)

b) Vamos regressar ao proteccionismo (e o Greenspan não a vai perdoar)

c) Vamos regressar ao condicionamento industrial do professor Oliveira Salazar

d) A senhora afinal até é cómica e decidiu gozar com a malta (era para contar a verdade, mas ficou para uma próxima: o país não pode viver sem importações)

e) A senhora é perita em alimentar espirais destrutivas na economia nacional (do tipo "tenham medo, tenham muiiitoooo medo, uh uh uh ah ah ah")

Das duas uma, ou esse "excesso de procura" é um falar para não estar calada, ou então é mais uma igNobel "verdade" da mentira que passou a integrar no discurso.


sábado, 16 de maio de 2009

A Entrevista Português Suave, II

Ontem a senhora esteve melhor, há que reconhecer (fazendo um esforço enorme!).

Apresentou-se de permanente, madeixas alouradas, e uma quantidade considerável de base na cara. Envergava, pela primeira vez que me recorde uma cor menos triste, um casaquinho azul, a tapar uma descontraída camisa branca meio aberta que tentava a colagem a um certo estilo blasé (que ela definitivamente não tem).


Enfim, sempre foi um pouco mais sensato do que o habitual uniforme cinzento.

Uma coisa é ser-se pessimista, e outra bem diferente é passar derrotismo aos galões para os outros, em vez de os motivar a superar o estado de situação. Pode ser que a senhora, entretanto, tenha percebido esta verdade elementar (o que duvido).

De resto, esteve muito igual a si mesma, com algum "verdete" quando em face de perguntas que a senhora achava irritantes, ou impróprias para uma senhora. De uma boa avó não se pode esperar paciência para tudo, mas um pouco mais de carinho não lhe teria ficado mal.

Afinal aquele era um canal público e "o povo" já não come só "bacalhau seco"...

Esteve igualmente bastante cautelosa relativamente às faltas do Banco de Portugal; ou porque existem hostilizadores suficientes nas hostes para os mais diversos ataques ou porque, naturalmente, o ódio personalizado na "chefe" é uma coisa que não assenta bem.

Parece que a senhora já compreendeu isso também...

Tivemos portanto uma pequena evolução na forma, um "casaco novo" (seria importado?), uma senhora 2.0, frente a jornalistas um tanto tímidos e sem perguntas de acagaçar (não vá a senhora ganhar o plebiscito e correr com eles).

Ponto positivo quanto ao reverberar de agonia das pequenas e micro-empresas, que carece realmente de respostas eficazes que contenham a sangria, mas negativo quanto ao medo anquiolosado ao comboio, e ainda pior quanto ao aeroporto, sem quaisquer sustentações de peso que não a instilação primária do medo, coisa que desgraçadamente lhe é habitual.

E feio.

Quanto ao que a senhora quer para o país ficámos a saber o mesmo: ela define-se sobretudo por "oposição a" e raramente "em prol de".

Era de esperar, ou não fosse a senhora a sombra em pessoa.

O situacionismo em crise

As carpideiras do Reino continuam a vaticinar o fim da nação. A crise convém-lhes, da sua pequenina perspectiva; rejubilam com ela.

Não que a crise não seja também nossa (logo deles); o problema é que as criaturas mal percebem que é todo o seu modo de pensar que verdadeiramente está em crise, mesmo no centro da crise.

"We need change", não de mais um regresso ao passado.

É curioso que o Salazar chegado ao poder manifestou a necessidade por "política de verdade".

Onde é que já ouvimos isto?