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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

How big is "too big to fail"?


Há algumas evidências de que podemos aprender alguma coisa sobre assuntos mundanos com a natureza.
Os dinossauros tiveram a sua grande época e extinguiram-se, tal como os mamutes, os sabres e muitos outros animais de grande porte. A natureza parece querer dizer que "grande" não equivale sempre a "melhor". Na verdade "grande", no reino animal, tem sido frequentemente significado de enormes necessidades "energéticas", e isso não é bom porque tende a ser instável num mundo de fauna diversificada em que existe competição por recursos limitados.

Na Europa, três dos grandes bancos que não precisaram de dinheiro dos contribuintes para se aguentarem - segundo a Bloomberg - possuem hoje activos próprios de valor igual ou superior ao PIB dos países onde se situam as respectivas sedes (mesmo descontando o valor das carteiras de activos que entretanto desvalorizaram, esses bancos e muitos outros aproveitaram para ir às compras e crescer ainda mais).

Os casos mais destacados são o Barclays PLC, o Santander e o BNP Paribas.

Talvez seja bom saber que houve bancos que se aguentaram sozinhos perante a maior tormenta financeira das últimas décadas, mas imaginar todas as trocas económicas dum grande país europeu como a França a decorrer durante um ano a fio, e somá-las a todas para chegar à conclusão de que valem menos do que o conjunto de activos de uma única instituição bancária, é uma evidência que deveria suscitar algumas questões pertinentes (nomeadamente sobre quem governa quem e como, na realidade, ou se não estaremos a permitir a germinação das sementes de novos problemas económicos de ainda maior dimensão).

Ainda assim, uma larga maioria de "teólogos de mercado", não vê nisso nenhuma luz de alarme...É espantoso.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Inquérito ao Banco de Portugal


A Assembleia da República também tem o dever de esclarecer o seguinte:

1) Possuía, tanto sobre o caso BPN como sobre o caso BPP, ou possuiu em algum momento, o Banco de Portugal evidências claras das malfeitorias em curso nessas instituições?
2) Em caso afirmativo (possuía provas ou perto disso), quais? Em que momento? Nesse caso, tratavam-se de provas inequívocas, indícios, ou apenas dúvidas não cabalmente fundamentadas?
3) À luz da lei e dos estatutos do Banco de Portugal, o que deveria ter sido a acção óptima do Governador, em face das evidências disponíveis?
4) Em caso negativo (existência de indícios desconexos ou dúvidas não cabalmente fundamentadas), que recursos legais e instrumentos existiam à data à disposição do Banco de Portugal para a acção no sentido da defesa do interesse público?
5) À luz dos pontos anteriores, em que se baseia concretamente o pedido insistente de demissão do Governador avançado por alguns deputados? À luz dos factos e das provas materiais e testemunhos recolhidos, quais foram as graves falhas de Vítor Constâncio, em concreto?
6) O Banco de Portugal, no caso de dispôr de dúvidas não fundamentadas ou pouco mais, tinha todos os meios e recursos para a investigação e fiscalização que lhe competia aprofundar? Realizou-a? Se realizou, terá falhado por falta de conclusividade objectiva ou por omissão? Por alguma suposta conveniência ou por manifesta impossibilidade no apuramento dos factos necessários à acção? Não terá agido mais cedo por clara inércia ou por insuficiente falta de visão sobre a realidade?
7) Finalmente, o que propõe a Assembleia como linhas de orientação para uma supervisão corrigida, com mais ou melhores poderes e meios de fiscalização e penalização, no futuro?

O reputado "trabalho" da Assembleia também tem de passar pelo crivo da sua própria honestidade intelectual e sobretudo do seu compromisso de não instrumentalização política de meros indícios para a chicana política, a perseguição pessoal ou o insulto gratuito a pessoas e instituições nacionais soberanas.

Outra coisa que não isso será mero populismo e pura irresponsabilidade.

No mínimo, tem também de se perguntar porque é que alguns dos membros da Assembleia da República já exigiam a demissão de Constâncio, ainda antes dos trabalhos de fiscalização à sua acção terem começado? O que "sabem" esses deputados de tão factual e importante que não possam muito claramente dizer? Ou será que apenas supõem indevidamente?

quarta-feira, 4 de março de 2009

As garantias do Estado à Banca & os Jarheads

Um dos desafios anexos às garantias do Estado português à banca - que na essência asseguram a continuidade de financiamento externo da economia portuguesa em 2009, ainda que a preço mais elevado - reside na necessidade absoluta de controlo (regulação) mais apertado sobre a qualidade do crédito concedido pela banca aos agentes de mercado.

Pelo caminho, tem de ficar vedada a tentação de conceder crédito fácil que empole lucros de curto prazo mas mine os de médio e longo prazo, congeladas temporariamente as operações de fusão e aquisição bancárias; têm de se exigir sistemas de controlo de risco mais transparentes, possivelmente a descontinuidade de operações em off-shores (que fogem aos impostos que todos pagamos "a dobrar" nas garantias), e por aí fora.

No mundo, os Ingleses estão aparentemente a tomar a liderança nas propostas de redesenho dos sistemas financeiros (Gordon Brown reuniu-se com Barack Obama para o discutir ao mais alto nível).

Cá em casa, e mesmo sabendo que a solução terá de se concertar globalmente, não há debate público sobre o assunto: as autoridades de supervisão estudam o que fazem os vizinhos, os banqueiros não falam do assunto, os sindicatos pouco ou nada acrescentam, o governo idem aspas, o parlamento está mudo e distraído com comissões de inquérito (provavelmente inconclusivas), a oposição está sem propostas (como de costume), e os media também não promovem nenhum debate, antes preferindo perseguir do que ajudar a pensar. Alguns académicos - muito poucos - afloram o tema, mas apenas suavemente e quase a medo.

Resignar-nos-emos ainda antes do tempo, e uma vez mais, ao mero "copy-paste" acrítico?

Que espécie de povo nos tornámos que sem hesitar importa tudo feito e pensado lá fora mas se recusa a usar a sua própria cabeça?