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domingo, 9 de maio de 2010

Europa: que futuro?

Cumprem-se hoje 65 anos do fim da segunda grande guerra. E no entanto, as divisões entre Europeus mantêm-se, como na lenda da torre de Babel. Se calhar, precisamos de mais uma guerra fria...

sábado, 8 de maio de 2010

Mobilização Geral

Sarkozy, ontem:

“A zona euro atravessa sem qualquer dúvida a crise mais grave desde a sua criação"

Sarkozy apelou à mobilização geral, ontem, em reunião com os seus homólogos europeus.

Contudo, o ataque já grassa desde Janeiro, e vamos ver se não é demasiado tarde. Pode não ser ainda tarde, mas a Europa terá enfim de dar um significativo e convincente salto em frente, rapidamente.

Estamos a assistir a uma nova forma de guerra sem muitos precedentes históricos, para a qual só agora os fracos líderes Europeus se mobilizam, em emergência e sem qualquer preparação prévia.

A situação não é ainda desesperada, mas é inegavelmente muito grave, requerendo uma flexibilidade, rapidez e ousadia de movimento de que a até agora a Europa a 27 não deu mostras.

A bridge too far


Excertos de "A Money Too Far", por PAUL KRUGMAN. Publicado a 6 de Maio no The New York Times:


(...) "The only thing that could seriously reduce Greek pain would be an economic recovery, which would both generate higher revenues, reducing the need for spending cuts, and create jobs. If Greece had its own currency, it could try to engineer such a recovery by devaluing that currency, increasing its export competitiveness. But Greece is on the euro.


So how does this end? Logically, I see three ways Greece could stay on the euro.


First, Greek workers could redeem themselves through suffering, accepting large wage cuts that make Greece competitive enough to add jobs again. Second, the European Central Bank could engage in much more expansionary policy, among other things buying lots of government debt, and accepting — indeed welcoming — the resulting inflation; this would make adjustment in Greece and other troubled euro-zone nations much easier. Or third, Berlin could become to Athens what Washington is to Sacramento — that is, fiscally stronger European governments could offer their weaker neighbors enough aid to make the crisis bearable.


The trouble, of course, is that none of these alternatives seem politically plausible.


What remains seems unthinkable: Greece leaving the euro. But when you’ve ruled out everything else, that’s what’s left."

segunda-feira, 3 de maio de 2010

União Europeia: "to be or not to be"


in FT (02-05-2010):

"Europe’s choice is to integrate or disintegrate.



The experiment of a monetary union without political union has failed. The EU is thus about to confront a historic choice."

domingo, 2 de maio de 2010

Comissão liquidatária (II)?

cartoon de Nelson

Segundo Rui Tavares, todo o trabalho de casa de Barroso - e também o seu próprio, digo eu - se deveria organizar para que se pudesse dizer, sem dúvidas ou ambiguidades:

“Não há economias periféricas nem centrais na zona euro; um ataque a um país da zona euro é um ataque ao euro enquanto todo; e não haverá nenhuma falência na eurolândia porque nós não o permitiremos; teria de falir a zona euro inteira, e isto só aconteceria a dois passos do apocalipse financeiro global, ou seja, não vai acontecer. Muito obrigado por terem ouvido.”

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Brennt Athen?

As próximas eleições na Alemanha (na região Rhine-Westphalia), serão a 9 de Maio.

A data marca igualmente o primeiro dia após o 65º aniversário da rendição incondicional Alemã na Segunda Guerra Mundial.

Será bom augúrio?

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Comissão liquidatária?


As crises ajudam-nos a perceber quem é quem: este homem, e a Comissão que ele representa, estão agora perto do zero absoluto.

A crise Greco-Europeia, vista por Soros


Texto de George Soros

"O euro é uma construção única e rara que, actualmente, está ser colocada à prova. Otmar Issing, um dos pais da moeda comum, definiu perfeitamente o princípio em que o euro foi fundado: o euro destinava-se a ser uma união monetária e não política. O Estados participantes definiram um banco central comum, mas recusaram, explicitamente, renunciar ao direito de taxar os próprios cidadãos e cedê-lo a uma autoridade comum. Este princípio ficou definido no Artigo 125 do Tratado de Maastricht, que desde então tem sido rigorosamente interpretados pelo tribunal constitucional alemão.

O princípio está, no entanto, errado. Uma moeda exige tanto um banco central como um Ministério das Finanças. O ministério não precisa de ser usado para taxar os cidadãos, mas precisa de estar disponível em tempos de crise. Quando o sistema financeiro está em perigo de entrar em colapso, o banco central pode fornecer liquidez mas apenas o Ministério das Finanças pode lidar com problemas de solvência. Este facto é conhecido e devia ter estado claro para todas as pessoas que estiveram envolvidas na criação do euro. Issing admite que esteve entre as pessoas que acreditaram que "iniciar uma união monetária sem definir primeiro uma união política era precipitado".

A União Europeia foi crescendo passo-a-passo de forma precipitada: estabelecendo objectivos e prazos limitados, mas politicamente alcançáveis, sabendo perfeitamente que não seriam suficientes e que seriam necessárias outras medidas no futuro. Mas, por diversas razões, o processo paralisou. A União Europeia está, em grande medida, congelada na sua forma actual.

O mesmo é válido para o euro. O "crash" de 2008 revelou os defeitos da construção do euro, já que cada membro teve de resgatar o seu próprio sistema bancário em vez de o fazer de forma conjunta. Estas questões atingiram o auge com a crise da dívida grega. Se os Estados-membros não podem dar o próximo passo, o euro pode desmoronar-se com consequências adversas para a União Europeia.

A construção original do euro definia que cada Estado-membro acataria os limites definidos pelo Tratado de Maastricht. Mas os anteriores Governos gregos violaram escandalosamente esses limites. O Governo de Papandreou, eleito em Outubro de 2009, com um mandato de colocar a casa em ordem, revelou que o défice de 2009 alcançou os 12,7% do produto interno bruto (PIB), o que surpreendeu as autoridades europeias e os mercados.

As autoridades europeias aceitaram um plano para reduzir o défice de forma gradual, mas os mercados não ficaram tranquilos. O prémio de risco das obrigações do Governo grego continua muito perto dos três pontos percentuais, privando a Grécia de muitos dos benefícios de pertencer ao euro - nomeadamente, ser capaz de refinanciar as obrigações do Governo à taxa de desconto oficial.

Com os actuais prémios de risco, existe o perigo real da Grécia não ser capaz de sair da situação em que se encontra, apesar das medidas que tomar, porque aumentar os cortes orçamentais pode deprimir ainda mais a actividade económica, reduzir as receitas fiscais e piorar o rácio da dívida face ao produto interno bruto. Dado este perigo, o prémio de risco não vai voltar aos níveis iniciais sem ajuda externa.

Esta situação é agravada pelo mercado dos credit default swaps (CDS), que estão enviesados a favor dos que especulam no pior cenário. No caso de CDS longos, o risco cai automaticamente se estiverem errados. Isto é exactamente o contrário do "short-selling"nos mercados accionistas, onde o risco aumenta automaticamente caso os investidores estiverem errados.

Depois de reconhecer a necessidade, o Ecofin comprometeu-se pela primeira vez, na sua última reunião, a "salvaguardar a estabilidade financeira da Zona Euro como um todo". Mas o Ecofin ainda não encontrou um mecanismo para o fazer, porque os actuais acordos institucionais não definem nenhum - apesar do Tratado de Lisboa definir as bases legais desses mecanismos.

A solução mais eficaz seria emitir, conjunta e separadamente, obrigações europeias como garantia para refinanciar, digamos 75% da dívida grega em vencimento, enquanto a Grécia cumpre os objectivos acordados, deixando que o país financie o restante valor da melhor maneira possível. Isto iria reduzir significativamente o custo de financiamento e seria equivalente aos empréstimos em tranches do FMI à medida que a Grécia fosse cumprido as condições.

Mas, actualmente esta opção é politicamente impossível porque a Alemanha opõe-se veemente à possibilidade se usar os seus grandes recursos para ajudar os membros gastadores. Sendo assim, é necessário encontrar acordos provisórios.

O Governo de Papandreou está determinado a fazer o que for preciso para corrigir os abusos do passado e tem um considerável apoio da opinião pública. Da parte da velha guarda do partido no poder, têm existido protestos maciços e alguma resistência mas o público em geral parece preparado para aceitar as medidas de austeridade desde que veja que os progressos estão a corrigir os abusos orçamentais - e existem muitos abusos para corrigir.

O apoio provisório vai ser suficiente para permitir que a Grécia seja bem sucedida, mas deixa de foram Espanha, Itália, Portugal e Irlanda. Em conjunto, estes países constituem uma grande parte da Zona Euro para se ajudada por acordos provisórios. A sobrevivência da Grécia deixa ainda em aberto o futuro do euro. Mesmo que a União Europeia consiga resolver a crise actual, será que vai conseguir resolver a próxima?

O que é necessário é evidente: mais controlo intrusivo e acordos institucionais para uma assistência condicional. Além disso, seria desejável que existisse um mercado de obrigações europeu bem organizado. A questão é se é possível gerar vontade política para tomar estas medidas."

terça-feira, 23 de março de 2010

Nein!!!

Barroso tem-se esforçado um pouco mais para desfazer a discórdia na casa europeia face à crise Grega, embora tarde, muito tarde... certo é que depois de avanços e recuos -que usou para colocar os seus serviços secretos na peugada de especuladores - Merkel não aponta na direcção de Sarkozy.

Atenas ameaça cair na rua, aos pés de Angela. Quase 70 anos depois da invasão alemã, voltará Berlim a reinar sobre Atenas?

terça-feira, 16 de março de 2010

Broken in little pieces...

A reacção europeia à crise Grega continua a poder-se pintar como acima alguém expressou, certamente a pensar noutra coisa qualquer...

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Comintern Europeu

O PSD tem frequentemente criticado aquilo a que designa de "desorçamentação", uma espécie de passagem habilidosa de verbas públicas (vd. dívida) para fora da contabilidade anual do Orçamento de Estado (Parpública...). Por sua vez o PS diz que Portugal se limita a utilizar regras contabilísticas autorizadas por Bruxelas, e que a situação não é diferente da prática de quase todos os outros países europeus (o que também é verdade).

Não se sabe ao certo quanto cabe na rubrica, que pode alcançar os 20% do PIB segundo os mais pessimistas... Mas, porque mantém Bruxelas essa possibilidade, depois do caso Grego?

A burocracia europeia e a Comissão são co-responsáveis por uma contabilidade nacional Grega fraudulenta, durante anos a fio. Quanto tempo permanecerá Bruxelas ainda calada sobre as regras contabilísticas que permitem a "desorçamentação"? É uma prática inócua ou esconder-se-á nela uma bomba relógio?

E Barroso, o que esclarece numa altura em que importava devolver a Bruxelas alguma credibilidade técnica relativa a estas matérias?

A Comissão corre riscos de nos evocar os tempos das estatísticas económicas falseadas dos soviéticos...

sexta-feira, 5 de março de 2010

The great pretender?


Durão Barroso apareceu esta semana determinado a fingir ser um líder. Veio proclamar o que toda a gente já sabe há muito - o falhanço da estratégia de Lisboa - e anunciar um esforço renovado da comissão para levar os países a investir mais em I&D e inovação.

E mesmo assim, Barroso apressou-se logo a justificar um possível falhanço neste objectivo, retirando credibilidade a si mesmo e ao que disse: "se os países não quiserem, isto não se fará"

Com este discurso Barroso escolheu passar ao lado de problemas que uma liderança séria e capaz jamais deixaria para segundo plano ou apenas entregue ao sabor dos acordos de conveniência entre 27 entidades distintas:

  • Federação: é uma das poucas vias que pode vir a garantir maior união política e resolver, ao mesmo tempo, os problemas a que assistimos nos países do sul, que fragilizam a moeda única e o projecto europeu. Durão deveria falar nisto semana sim, semana sim, mas nada... eu não quero que o projecto europeu se desfaça entre as guerras de interesses, crises e falta de visão face ao que a europa no seu conjunto enfrenta.
  • Simplificação: Barroso alargou a UE mas pouco ou nada fez para simplificar o funcionamento da máquina de papelinhos de Bruxelas; eu não quero uma europa super burocrática.
  • Democracia: eu não quero em Bruxelas uma máquina de acordos corporativos dirigida por políticos que não conheço; quero lá os melhores, e quero que sejam eleitos pelos povos europeus de forma equitativa e representativa; quero que os políticos europeus façam pela vida e nos mostrem a todos quem são e o que fizeram para merecer a tribuna. Para quando, senhor Barroso?
  • Tranparência e igualdade de oportunidades: eu não quero uma comissão europeia cheia de projectos e projectinhos e subsídios para apoiar tudo e tudo resultar em (quase) nada, nem me apetece, tão pouco, pagar mais impostos para que esses projectos beneficiem grupos de interesses especiais nos diversos países europeus; eu quero uma comissão com um programa sufragado, dirigido às linhas de acção mais importantes e fundamentais que, sem nunca perder de vista uma progressiva integração política, estimule o que o futuro precisa e aquilo de que o presente mais carece, na europa.
  • Regulação dos mercados e agentes financeiros: o que está a fazer a comissão para combater o sistema bancário sombra, para endurecer o castigo aos que prevaricam a grande escala com o dinheiro dos outros, para matar a gestão danosa? o que está a fazer a comissão para regular os offshore e perseguir lavagens de dinheiro dentro das suas próprias fronteiras? o que está a fazer a comissão para reduzir as desigualdades e taxar a mobilidade de capitais e os lucros financeiros duma forma mais justa? o que está a fazer a comissão para ajudar Obama a fazer o mesmo do outro lado do atlântico e em toda a esfera de influência ocidental?

Barroso não pugna à máxima força por nada disto. Os seus discursos talvez sejam ouvidos, no máximo, por tecnocratas e espiões. Para mudar este apático e mortal estado de coisas, Barroso precisaria de três coisas que ainda não mostrou ter: paixão, inteligência e determinação.

Se fosse um líder inteligente e apaixonado saberia ao menos cativar as multidões que precisa para se libertar dos arreios que lhe impuseram, contribuindo dessa forma para avançar a Europa.

O seu discurso desta semana, isolado, com sabor a usado e desviando o foco das atenções para uma verdade universal - a de que é preciso investir mais em I&D e inovação - é um discurso de um líder fraco, perdido, uma fuga para a frente de uma intenção talvez desenhada para falhar, uma manobra de diversão que poderia até resultar no seu país, mas que dificilmente convencerá as capitais principais da europa, e seus povos, do que quer que seja.

Barroso falou para não continuar calado. Se quer começar a ser líder - o que eu aconselho vivamente - pense bem no que diz, como diz e onde diz, antes de falar.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

La pathétique


Já lá vai mais de um mês que a imprensa mundial expõe, quase todos os dias, os problemas estruturais muito graves da Europa e do Euro, a carência urgente por resoluções de natureza política que permitam à Europa sequer sobreviver às próximas décadas.

No entanto, de Durão Barroso, Van Rompuy ou Catherine Asthon, não vislumbramos ainda a menor ideia, a mais vaga noção de liderança, perante uma situação de clara emergência que exige sinais claros, obviamente não apenas no plano económico, mas estrutural e político.

É como se vivessem na Lua. 2010 parece ser o ano em que a Europa política assumiu em definitivo o seu segundo mundismo, a sua patética irrelevância no mundo. Escrevo-o com mágoa.

Entretanto, em Portugal, transpira-se uma mentalidade insular também trágica: quase nenhum jornal, telejornal, ou personalidade influente debate seriamente as consequências duma Europa fraca e multipolar, as origens e consequências últimas da maior crise económica do Ocidente num século - como a ela se refere já Alan Greenspan - já para não falar das consequências da sobrevivência da fanática e animalesca utopia neoliberal que apesar de tudo parece agora ainda mais forte neste país, ou dos efeitos mais complexos duma globalização que ameaça transformar a prazo países como o nosso numa chinesice.

Os políticos - quase todos - debatem-se como comadres e imaginam o país como se este começasse, se fizesse, e acabasse em fronteiras que já só existem nas suas cabeças; para um grande número de cidadãos, vale a indiferença, a apatia, a ira desnorteada, a acomodação ou a simples incapacidade de compreender o que se passa.

É-me cada vez mais difícil, diariamente penoso, conviver com tão tremendo provincianismo.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Vítor Constâncio

Há histórias que por vezes acabam muito mal para os invejosos. A história recente de Vítor Constâncio, é uma delas. Sempre aqui fiz a sua defesa, o que tem muito a ver com o facto de o conhecer de algumas funções técnicas a que dedicou a sua vida, de ter aprendido a conhecer a sua experiência e o seu pensamento económico - não o conheci nem por motivações políticas, nem devido a acasos de natureza pessoal.

Consegui seguir as razões pelas quais tem sido invejado, atacado, injuriado, perseguido mesmo, neste país que pouco merece um homem com o seu conhecimento e experiência de economia monetária (como os próprios patrões da banca têm reconhecido, à revelia dos inquisidores "medievais" bem conhecidos).

Constâncio foi ontem nomeado pelos 16 ministros das Finanças da zona Euro para as funções de Vice-Presidente do BCE.

O melhor do bolo é que isto acontece por influência de Angela Merkel - que chatice não poderem culpar Sócrates também por isto - muito admirada por certos sectores conservadores portugueses que ela não só não conhece como, penso eu, repudiaria vivamente caso viesse a conhecer mesmo bem.

O mais importante: não sei se a escolha de Constâncio vai mudar alguma coisa no BCE - Trichet não vai estar muito mais tempo. Como é claro, espero que contribua positivamente, sobretudo porque ele conhece muitíssimo bem as vantagens, mas também as imensas fragilidades técnicas, inerentes à (actual) união monetária europeia. Constâncio sabe de cor as consequências da desarmonia fiscal e dos mercados de trabalho no seio de uma moeda única, face a choques externos. Posso garantir isso pessoalmente, em primeira mão.

Este homem tem a boa capacidade técnica e política para eventualmente persuadir pela razão e apoiar os líderes europeus mais poderosos em direcção à inevitável federação, sem a qual o projecto europeu corre sérios riscos de afundamento.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Laissez-faire, laissez-passer...

Perante uns Estados Unidos da América que dão sinais de cansaço - ou cálculo? - na manutenção do papel de tutoria aos meninos de papá que são os burocratas não eleitos desta Europa, temos de assistir à humilhação que consiste em constatar uma Comissão que não existiu durante quatro meses - sem que praticamente ninguém tenha dado conta disso - ainda que a Europa venha atravessando, de longe, a sua mais grave crise do pós-guerra.

Será mal comparado, mas não sei porquê vem-me ao espírito o estado de alma, a inércia e incrédula torpeza, do Estado-Maior Francês em 1940, completamente perdido e atónito perante um surpreendente avanço Alemão.

Bruxelas é menos má no "copy paste" - escrevo-o com ironia, naturalmente - e quando é preciso que funcione pela sua própria cabeça, é aquilo que se vê... Por mais que se aperte, não sai quase nada; recolhe-se, antes, nos seus infinitos mecanismos de evasão, à espera que a borrasca passe sem sentir o cheiro à chuva.

Para ironia maior, é com um português "à sua frente" que tudo isto acontece na Europa, talvez para a história no-lo vir recordar durante as décadas a vir.

Bem, o que esperávamos? Não muito, é verdade...

É o retrato perfeito de um PPE de direita e "às direitas", pago pelo contribuinte para implementar o "laissez-faire", i.e. pago para fazer absolutamente nada, ou perto disso.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

E se?

Se calhar não era má ideia os Ministros das Finanças dos países sob ataque especulativo reunirem-se em conferência de imprensa internacional e denunciarem o que urge ser denunciado sobre os diversos tipos de ogres com os quais nos confrontamos, incluíndo os que residem na nossa Europa.

Under attack

Os maus agoiros da Fitch e da Standard & Poor's relativamente à Grécia - e a Portugal - embateram hoje na economia real do nosso país, permeando a imprensa económica internacional e arrastando as bolsas europeias e norte-americanas, bem como o Euro. Algumas barragens começam a ceder a partir de pequenas fissuras. No caso a pequena fissura foi a Grécia, mas a barragem em risco é já a Europa.

Quais abutres "ao serviço de interesses comerciais" (como afirmava hoje Teixeira dos Santos), algumas das agências de rating indicíam fazer parte da rede de influência do grande capital conservador (ou neoliberal) que procura por todos os meios desfazer economias - e países progressistas - para lucro exclusivo de um punhado de gente que nem sequer conhecemos pelo nome e que manobra hoje com muito mais poder que vários primeiros-ministros juntos.

Primeiro, esconderam do grande público ou ignoraram propositadamente a crise que se avizinhava, protegendo poucos à custa do engano de muitos; depois, quando grandes bancos de investimentos e seguradoras começaram a ruir, clamaram pela intervenção dos estados; finalmente, com o dinheiro dos contribuintes mundiais já metido nas brechas que esta rede ajudou a criar, escolhem agora as vítimas mais fáceis: na Europa, primeiro a Grécia, como teste, e agora Portugal, Espanha e Itália (apesar da situação dos 3 últimos países ser bem diferente da Grécia). A Áustria e a Irlanda também são candidatos, bem como a banca Inglesa e talvez num futuro não muito distante, a própria França.

Há cerca de dois meses registei aqui, pelo andar da carruagem que os preços dos CDS estavam a levar, que se estava a desenhar a oportunidade para mais uma bolha, desta vez jogada com o futuro de povos inteiros.

A reacção a isto não mais pode ser de apaziguamento, pois ultrapassaram-se já todas as marcas. É bom que os Governos dos países visados se unam e - com ou sem o apoio da União Europeia e instituições internacionais - comecem a agir muito duramente, primeiro nos bastidores e depois à vista desarmada.

Também é claro que se somos parte desta fenda, foi porque nos fomos pondo a jeito de o ser...

Contudo, é intolerável que a nossa economia seja telecomandada por um punhado de dementes escondidos algures, ou que a alguém seja permitida a leviandade de transformar uma situação de perigo para um povo numa catástofre a tempo presente.

Isto devia ser encarado, denunciado e tratado como uma ameaça à soberania nacional, pois de facto é de um ataque já em curso aquilo de que estamos a ser alvo. Que isso não sirva, porém, para distrair o governo, as empresas, e as famílias, do trabalho de casa que lhes compete.

Não há apaziguamento possível com os ogres. Lembrem-se de Neville Chamberlain e dos seus bons, mas errados, modos.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Trichet, o moderado


Num bom recado colateral a certa direita portuguesa (que defende o regresso ao "orgulhosamente sós"), Trichet deixou escapar: "Saída da Grécia do euro? Não comento hipóteses absurdas".

Trichet pode ser teimoso, obstinado, mas ainda anda longe de ser descaradamente parvo.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Racismo Institucional, Made in Italy

Com o que se passa em Itália, essa parte admirável do mundo pertencente ao que George Bush um dia chamou a antítese da "Velha Europa", a Comissão Europeia, aparentemente, não se preocupa nada...

Cartazes de agências imobiliárias que avisam "nem animais, nem estrangeiros", um futebolista - Mario Balotelli - apelidado de "preto de merda", imigrantes atacados e espancados na noite de Ano Novo, ou em pleno centro de Florença... Os incidentes sucedem-se e, pior, estão a ser promovidos pela vanguarda de direita no poder, a Liga do Norte, de Umberto Bossi. Berlusconi consente.

...E o "capo" Bossi não se coibe de, publicamente, qualificar os negros de "bingo bongo" (e não esqueçamos que não se trata apenas de intimidação a imigrantes, pois há dezenas de milhar de cidadãos italianos de cor negra).

É o regresso ao racismo institucional e de Estado.

Durão Barroso, entretanto, assobia para o ar... e a sua Comissão, aparentemente, bem como a maioria do Parlamento Europeu, também.

Capitulação Grega?


Os Estados Europeus - leia-se contribuintes - tiveram de socorrer bancos, seguradoras, boa parte de grandes indústrias, e com isso assistimos ao subir de dívidas externas, dívidas públicas e défices nacionais. Porquê? Por causa de décadas de ganância implícita suportada em fundamentalismo desregulador de mercado (iniciado por Reagan e Thatcher) em nome da obsessão quase paranóica da redução do papel do Estado em favor do mercado puro e duro (que em Inglaterra gerou, por exemplo, a quase total vulnerabilidade energética face ao exterior e um sistema de transportes ferroviário em franca decadência).

Em resultado, assistimos por um lado a conversa mole e dispersa sobre a necessidade de regular os mercados de forma diferente, mais preventiva e, por outro, a conversa dura que soa a renovado fundamentalismo neoliberal, ainda e sempre atento a esse garrote técnico chamado "pacto de estabilidade" (bom instrumento, mas apenas se aplicado q.b.), cujo resultado irá pelos vistos desembocar em menos Estado e mais privatizações, provavelmente apressadas e ao preço da uva mijona...
O que se passa na Grécia parece ser uma espécie de antevisão do que pode vir a acontecer noutras nações Europeias, nomeadamente em Portugal. Antes da crise, queria-se privatizar (não melhorar... mas essencialmente privatizar...) a Saúde e o Ensino; depois da crise assistimos à mesma receita com condimento reforçado (vd. por exemplo o já explícito Daniel Bessa).
De facto, a crise parece ser também um modo de condução política.
O desmantelamento impune do Estado Social continua a ter amigos em lugares muito influentes na Europa...