Personagens insuspeitas - à esquerda e à direita - apressaram-se, ainda antes das 20:00h de hoje, a discorrer sobre a "inexperiência" de Fernando Nobre, a alertar para o eventual "efeito divisionista à esquerda" que a sua candidatura à Presidência da República iria motivar; outros, disfarçando mal o nervosismo que a candidatura de Nobre lhes desperta, profetizaram entretanto que a sua candidatura não conseguirá ir além dos 5% ou dos 6%. Para compor o ramalhete de comentários perfeitamente estúpidos, já ouvi mesmo dizer à direita que Nobre lhes fará o favor de se poderem dar ao luxo de nem sequer terem de ir votar, tal é já a sua certeza da vitória de Cavaco...
Se alguns portugueses, por um lado, rogam pragas aos políticos "profissionais" numa base diária - especialmente aos que estão no poder - e fazem reflectir sobre os políticos e a política muito do que lhes corre menos bem na vida, clamando ardentemente pelo acesso dos "melhores" à política, por outro lado, quando alguns desses nossos melhores finalmente avançam - ou mesmo antes, como se vê - começa de imediato a sátira e o absurdo.
Pode ser que eu esteja maluco, que eu esteja a ver muito mal a coisa, que eu tenha perdido discernimento, mas depois de ouvir Nobre hoje às 20:00h, pensei: temos Presidente!
Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.
Fernando Pessoa
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